O massacre de Bagdad

Queridos irmãos e irmãs de todo o mundo,

Queremos começar esta carta agradecendo-vos todas as mensagens de comunhão e de solidariedade que recebemos. Neste momento, há muitas catástrofes naturais no mundo que causam um número de vítimas bem superior ao que existe aqui, só que o que causa estas catástrofes não é o ódio, e isso faz toda a diferença.

A nossa igreja está habituada a sofrer reveses bem duros, mas é a primeira vez que é tão violento e selvagem e sobretudo é a primeira vez que isso acontece no interior da igreja. Normalmente fazem explodir as bombas no átrio.

A igreja de Notre Dame du Salut é uma das três igrejas Católicas Siríacas de Bagdad, a maioria das pessoas que a frequentam são cristãos de rito siríaco originários de Mossoul ou das 3 aldeias cristãs siríacas próximas de Mossoul: Qaraqosh de onde são originárias as nossas PS. Virgin Hanan e Rajah Nour, Bartolla e Bashiqa de onde é originária PS. Mariam Farah. Graças à Deus nenhum dos seus parentes próximos foi morto ou ferido com gravidade.

A igreja foi tomada de assalto no Domingo 31 de Outubro depois do meio-dia, precisamente depois do sermão do Pe. Tha' de ER que celebrava a missa. O Pe. Wasim, que era filho de uma prima da PS. Lamia, estava a confessar ao fundo da igreja perto da porta de entrada, o Pe. Raphael estava no coro. Os atacantes eram muito jovens (14-15 anos), não usavam máscaras e tinham metralhadoras, granadas e levavam um cinto com explosivos.

Abriram fogo imediatamente, matando o Pe. Wasim que tentava de fechar a porta da igreja, depois dispararam indiscriminadamente após terem ordenado às pessoas que se deitassem no chão e que não se mexessem nem gritassem. Algumas conseguiram dar o alerta por sms, mas os assaltantes começaram a disparar sobre as pessoas que viam que estavam a utilizar o telemóvel. O Pe. Tha' ER, que continuava a celebrar missa, foi morto com as suas vestes sacerdotais (paramentos), o seu irmão e a sua mãe também foram mortos.

Depois, foi o massacre, não conseguimos contar tudo o que as pessoas nos contaram, mesmo as crianças que gritavam eram mortas. Certas pessoas refugiaram-se na sacristia barricando a porta, mas eles subiram ao terraço da igreja e lançaram granadas pelas janelas da sacristia que são altas.

Tudo isto leva a crer que foi um ataque bem preparado e que eles tiveram ajuda do exterior. Como é que conseguiram transpor as barreiras policiais (na rua que vai dar à igreja) e saber o caminho para o terraço, etc? Eles metralharam igualmente os aparelhos de ar condicionado de modo a que o gás que se ia libertando asfixiasse as pessoas que estavam próximas.

Metralharam a Cruz escarnecendo e dizendo às pessoas: “digam-Lhe para vos salvar“, também pediram a chamada à oração: Allah akbar, la ilah illallah… E no fim quando o exército estava prestes a entrar, fizeram-se explodir a si próprios.

O exército e os socorros demoraram quase 2 horas a chegar, tal como os americanos que sobrevoavam de helicóptero, mas o exército não está preparado para gerir este tipo de situação e não sabiam bem o que fazer. Porque é que demoraram assim tanto tempo a chegar?

Tudo terminou por volta das 10h30 - 11h da noite, aquilo demorou demasiado tempo e pensamos que muitas pessoas morreram por causa das hemorragia provocadas pelas suas feridas.

Depois, os feridos foram levados para diferentes hospitais e os mortos para a morgue. As pessoas começaram a chegar para saber o que se tinha passado e para saber notícias dos seus parentes, mas foi proibido o acesso à igreja e as pessoas começaram a ir de hospital em hospital à procura dos seus conhecidos. Vimos pessoas que procuraram familiares até às 4 h da manhã para finalmente os descobrirem na morgue.

No dia seguinte foram os funerais na igreja caldeia vizinha, a igreja estava repleta de gente, foi muito impressionante, havia 15 caixões alinhados no coro; as outras vítimas foram enterradas na sua aldeia ou separadamente.

Representantes de todas as comunidades cristãs bem como do governo estavam lá, o nosso Patriarca falou, bem como o porta-voz do governo e um religioso, chefe de um partido islâmico (Moammar el Hakim). A oração teve lugar numa grande dignidade e sem manifestações ruidosas. O Pe. Saad, pároco desta igreja, foi ajudando as pessoas a rezar à medida que iam chegando, antes do início da cerimónia.

Os 2 jovens padres foram enterrados na sua igreja destruída, há um cemitério sob a igreja, antes de serem enterrados, os caixões estiveram na igreja para que as pessoas pudessem dizer-lhes adeus.

No início, não sabíamos nada acerca das vítimas, não conhecíamos ninguém directamente, excepto o Pe. Raphael, padre muito idoso, e fomos ao hospital visitá-lo e visitar os feridos que também aí estavam. Foram as famílias que nos conduziram de quarto em quarto bem como os funcionários do hospital que nos foram indicando os feridos. Por acaso eram todas mulheres ou jovens raparigas, todas com ferimentos de balas, não como numa explosão em que se pode ficar sem um braço ou uma perna. Permanecemos ao lado deles sem falar muito, eram eles quem falava ou então a sua família, cada um revivia a sua história enquanto no-la ia contando. Como o ataque teve lugar num domingo durante a missa, membros de uma mesma família foram mortos ou feridos, alguns ao tentar proteger as suas crianças. Ficámos admiradas com a sua calma e a sua fé enquanto nos contavam tudo, pareciam-nos pessoas vindas de um outro mundo e que nesse momento, nada os preocupava a não ser o encontro próximo com o Senhor, já não pensavam em mais nada e limitavam-se a rezar, e tudo isto durou 5 horas…

Sexta-feira à tarde jovens de várias paróquias vieram ajudar a arrumar e limpar um pouco, e no Domingo seguinte, 7 de Novembro, todos os padres sírios e caldeus de Bagdad que estavam disponíveis celebraram missa nesta igreja vazia e devastada sobre uma mesa de jogo(?), havia poucas pessoas porque esta missa não tinha sido anunciada, nós não fomos porque não soubemos, foi muito que comovente.

Há um aumento de fé e de determinação sobretudo nos padres que permanecem em Bagdad que dizem: querem correr connosco e exterminar-nos mas estamos aqui e permaneceremos, durante 14 séculos não conseguiram acabar connosco. A história dos cristãos do Iraque é uma longa história de perseguições, martírios, de cristãos escorraçados e deslocados.

Lembramo-nos da frase do salmo 69: “São mais que os cabelos da minha cabeça, aqueles que injustamente me odeiam” e pensamos sobretudo em Jesus, odiado sem razão, apesar de ter passado fazendo o bem.

Terminamos esta carta com o grito de uma criança de 3 anos que viu matar o pai e que gritava: “já chega, já chega”, antes de também ele ser morto; sim realmente com o nosso povo, gritamos também: já chega.

As vossas irmãzinhas de Bagdad, Alice e Martine