Estrada

Não tem fim. Mesmo! Esquece, ou melhor: oferece! Pensa só no passo seguinte. Não pares. Segue. E o asfalto serpenteia ainda, outra e outra vez, no dobrar da curva seguinte. A subir. Já não sentes. Nada. Os pés, as bolhas, as dores. Só voltam se parares. Tapete verde de espigas cobrindo a encosta. Pintalgado de encarnado, amarelo, roxo, e branco mais adiante. “um campo cheio de infestantes!”, sorris a recordar o comentário agrícola à seara com papoilas. E contudo… tão bonito! Repouso de olhos citadinos, tela impressionista que o Senhor pinta cada dia por esse campo fora, ao sabor do sol e da chuva de uma Primavera incerta. O grupo de trás já te apanhou. Agarras o seu cânone trauteado como um estribilho, e juntas-te a eles. “… levai as almas todas para o céu…”  Na cadência do mistério seguinte acertas o passo. Não tires os olhos do chão. Pensa só no passo seguinte. Não pares. Segue. Agora em terra. A estrada. Que serpenteia ainda, outra e outra vez, no dobrar da curva seguinte. A subir. Sempre. É a serra. Qual? Já não sabes. Já não sentes. Calhau. Pedregulho. Pensa só no passo seguinte. Não pares. Segue. Esquece, ou melhor: oferece! A estrada é a tua vida. “Meu Deus, eu creio, adoro, espero e amo-vos…”

Lisboa, 8 de Maio de 2012

 

Concha Balcão Reis da CVX “ABBA”